Ensaio sobre estilo

A moda enfim levou mulheres mais velhas à passarela. Agora precisa vesti-las

Redação DressWise

Por décadas, a passarela foi um dos espaços mais consistentemente etaristas da cultura: um desfile sem fim de adolescentes vendendo roupas que, em geral, seriam compradas por mulheres com o dobro da idade. O outono/inverno 2026 mudou esse quadro de forma difícil de ignorar.

Por décadas, a passarela foi um dos espaços mais consistentemente etaristas da cultura: um desfile sem fim de adolescentes vendendo roupas que, em geral, seriam compradas por mulheres com o dobro da idade. O outono/inverno 2026 mudou esse quadro de forma difícil de ignorar. Stephanie Cavalli, ex-modelo de 50 anos com fios grisalhos, abriu o desfile de alta-costura da Chanel — e depois o de prêt-à-porter — sob Matthieu Blazy. Kate Moss encerrou a Gucci aos 52, Gillian Anderson fechou a Miu Miu aos 57 e Lesley Manville desfilou para a Burberry aos 69. Pela primeira vez em muito tempo, a passarela se pareceu mais com quem de fato paga pelo que vê nela.

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A razão é matemática, sem sentimentalismo. Pessoas com mais de 50 anos detêm a maior parte da riqueza pessoal em mercados como os Estados Unidos, onde controlariam cerca de 72% dela, e devem responder por quase metade do crescimento dos gastos globais com moda. As marcas não se tornaram esclarecidas de repente — enfim perceberam quem mantém as contas pagas. O constrangimento está no que isso expõe: uma cliente que concentra quase todo o dinheiro e que, até esta temporada, quase não recebia atenção. A mesma conta vale para a moda masculina, mas a história visível até agora foi contada nas roupas femininas.

A visibilidade é real e merece reconhecimento. Dados de acompanhamento divulgados pela Tagwalk mostraram que todas as 20 maiores casas de luxo escalaram ao menos uma modelo mais velha na temporada 2026, e elas não estão ali como símbolo vazio — foram escolhidas por sua aparência, sem que ela fosse tratada como obstáculo. Mas observe o que “aparência” ainda significa. As modelos mais velhas nas passarelas continuam, em sua grande maioria, seguindo um padrão jovem e estreito: magras, firmes, esculpidas, com poucas rugas. A moda envelheceu os rostos sem envelhecer muito sua ideia de como deve ser uma mulher de vestido.

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A lacuna mais profunda está nas próprias roupas. Escalar modelos custa pouco; desenvolver modelagem para um corpo em mudança é lento e caro. É revelador que a mesma temporada que celebrou a diversidade etária tenha visto a diversidade corporal recuar discretamente — críticos observaram que a moda trocara uma inclusão por outra. E a cliente percebe. Uma pesquisa da YouGov apontou que, no Reino Unido, cerca de quatro em cada dez mulheres com mais de 55 anos dizem que moda e vestuário não as atendem. Pedem caimento, qualidade e valor, em vez de mais novidades — prioridades que já orientam seus gastos e que o setor passou anos deixando de lado.

O marketing avançou mais rápido que o produto. Paulina Porizkova, hoje embaixadora da Estée Lauder aos 61 anos, resumiu o problema: “Não quero que digam que sou bonita para a minha idade. Quero que digam que sou bonita.” A Jacquemus nomeou a avó de 85 anos de seu fundador como primeira embaixadora; a Moncler reuniu Robert De Niro e Al Pacino numa campanha. Algumas marcas até substituem “antienvelhecimento” por “longevidade” no rótulo. São bons sinais, mas um outdoor não é uma roupa, e “bonita para a sua idade” é justamente o tipo de elogio condicionado que o setor ainda precisa desaprender.

Para quem monta um guarda-roupa, isso implica uma inversão discreta. Por anos, “vestir-se de acordo com a idade” foi advertência — uma lista do que parar de usar. A pergunta mais útil sempre foi outra: isto serve no meu corpo, na minha rotina e na vida que realmente levo? Essa pergunta não tem limite de idade e, por acaso, é a mesma que leva às peças que a moda vende como “investimento” e “atemporais” — um casaco bem cortado, uma calça que veste bem, um sapato para caminhar. Custo por uso não é métrica de jovem nem de idoso; é de quem decidiu que suas roupas devem funcionar.

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A sensação de ser ignorada vai além de um mercado. Aparece no Reino Unido, onde aqueles 39% são difíceis de descartar; em partes do Sudeste Asiático, onde a maioria das pessoas na faixa dos 50 e 60 anos diz que poucas marcas são feitas para elas; e no sul da Europa, onde consumidores mais velhos mantêm estáveis os gastos com beleza e moda. A queixa é a mesma; mudam o clima e os códigos — quem usa camadas no outono do norte europeu e quem se veste para o calor costeiro do sul da Europa precisam de respostas diferentes à mesma pergunta de fundo.

A lição não é que a moda ficou bondosa. É que o setor enfim admitiu publicamente quem é sua cliente — e essa admissão traz uma obrigação ainda não cumprida. Escalar uma modelo de 60 anos é uma declaração. Cortar uma calça que sirva num corpo de 60 anos, a um preço que respeite essa mulher, e mostrar ela própria — em vez de uma substituta de 20 anos — usando a peça é o trabalho real. A moda levou mulheres mais velhas à passarela. Agora precisa vesti-las, e todos observamos se vai cumprir.

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